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por Júlio Ottoboni São 500 anos de divisão, entre o belo e o feio. O rico e o paupérrimo. A entrega e a negação. Para esse território,
dividido antes mesmo de ser descoberto, deram vários nomes. Mas
ficou Brasil, nome de vegetal. De uma árvore de folhas miúdas
que florescia em qualquer canto e hoje está praticamente extinta,
como quase todas as matas que cobriam esse lugar. De um povo que fala o
português no meio da América espanhola. E nem mesmo consegue
acertar a pronúncia de Brasil. Usa-se o "u" no lugar do "l". Brasiú,
dicotômico, bifurcado, dividido entre suas próprias incoerências.
Entre a mentira e a verdade do " País do futuro" e da "terra abençoada
por Deus".
Então há
o que comemorar. A floresta amazônica, não o desflorestamento.
O ouro, não as minas. Os índios, não o genocídio.
O negro, não a escravidão. Todos os povos de todas
as partes do mundo, não o exílio e o desterro. Viva Castro Alves, Cassiano Ricardo, Drummond, Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Monteiro Lobato e a nossa língua brasileira. O nosso povo brasileiro, mulato, loiro, ruivo, negro, oriental, mestiço de todas as raças, de todos os credos. Temos muito o que celebrar.
Nossa fé, nossa religiosidade. Nossa Senhora Aparecida, todas as
entidades afro-brasileiras, os espíritos da floresta, os seres que
povoam o imaginário popular. São Benedito, que ficou negro
aqui. São Jorge (santo protetor do meu Corinthians), que nasceu
católico e acabou nos terreiros de candomblé.
São 500 anos
de miscigenação, de heróis diários e anôminos,
de gente que nasce, cresce e morre sem registro civil, sem cidadania, sem
saber quem foi ou quem é o presidente do Brasil. Esses que
fazem o Brasiú, Brasil e o Brazil do carnaval, da semana santa,
do grito de gol, do berro por justiça e igualdade.
Festejar nossa natureza
(sem igual), nossos monumentos, nossa criatividade. A beleza do Rio de
Janeiro e de seus morros apinhados de favelas. De São Paulo rica
e tão encardida e sem tempo. Ouvir e se deliciar com o som de Tom
Jobim, de Villa-Lobos, de Carlos Gomes e Caetano Velloso, Chico Buarque
e Pixinguinha. E de tantos outros que infestam nossa alma musical.
Tempos de muitas lembranças,
também polarizadas. Umas antigas, como Canudos, outras recentes,
como o choro do filho do Zico, na primeira página do JT, no desastre
de 82. Ambas tristes, mas tão brasileiras. Como o golpe de 64 e
a multidão nas ruas por Diretas Já. (Nunca mais ditadura,
por pior que seja o governo democrático). Fora Collor. E fora todo
aquele que quiser punir esse povo tão punido pelos abusos
cometidos nestes cinco séculos de máculas.
Brasil. Seus 500 anos
não foram sinônimo de muita ordem e progresso. Mas de fé
e esperança.
Esperamos que nestes
próximos 500 anos , suas diferenças sejam mais amenas. Que
o feio esteja mais para o belo, que a floresta sobreviva, que nada mais
seja o fim e sim o meio. O meio de se construir um grande País.
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©Kalix Magazine - Edição
maio-junho 2000. Verve Comunicação
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