Fotos por : Adriana Paiva
Pescador Porto Seguro -Bahia
Ambulante Liberdade-SP
Fotógrafa Milla Petrillo-DF
Índio São Sebastião -SP
Simone / Leblon-RJ
Andarilho-103 norte /Brasília
Palhaço Limonada -DF
Índio-Eco 92
Fernanda Takai /Palace-SP
Arte e Fotos:
Adriana Paiva
             
 
 

    por  Júlio Ottoboni


 

São 500 anos de divisão, entre o belo e o feio. O rico e o paupérrimo.  A entrega e a negação. 

Para esse território, dividido antes mesmo de ser descoberto, deram vários nomes. Mas ficou Brasil, nome de vegetal.  De uma árvore de folhas miúdas que florescia em qualquer canto e hoje está praticamente extinta, como quase todas as matas que cobriam esse lugar. De um povo que fala o português no meio da América espanhola. E nem mesmo consegue acertar a pronúncia de Brasil. Usa-se o "u" no lugar do "l". Brasiú, dicotômico, bifurcado, dividido entre suas próprias incoerências. Entre a mentira e a verdade do " País do futuro" e da "terra abençoada por Deus".
Então há o que comemorar. A floresta amazônica, não o desflorestamento. O ouro, não as minas. Os índios, não o genocídio. O negro, não a escravidão. Todos os povos de todas 
as partes do mundo, não o exílio e o desterro. Viva Castro Alves, Cassiano Ricardo, Drummond, Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Monteiro Lobato e a nossa língua brasileira. O nosso povo brasileiro, mulato, loiro, ruivo, negro, oriental, mestiço de todas as raças, de todos os credos.
Temos muito o que celebrar. Nossa fé, nossa religiosidade. Nossa Senhora Aparecida, todas as entidades afro-brasileiras, os espíritos da floresta, os seres que povoam o imaginário popular. São Benedito, que ficou negro aqui. São Jorge (santo protetor do meu Corinthians), que nasceu católico e acabou nos terreiros de candomblé.
São 500 anos de miscigenação, de heróis diários e anôminos, de gente que nasce, cresce e morre sem registro civil, sem cidadania, sem saber quem  foi ou quem é o presidente do Brasil. Esses que fazem o Brasiú, Brasil e o Brazil do carnaval, da semana santa, do grito de gol, do berro por justiça e igualdade.
Festejar nossa natureza (sem igual), nossos monumentos, nossa criatividade. A beleza do Rio de Janeiro e de seus morros apinhados de favelas. De São Paulo rica e tão encardida e sem tempo. Ouvir e se deliciar com o som de Tom Jobim, de Villa-Lobos, de Carlos Gomes e Caetano Velloso, Chico Buarque e Pixinguinha. E de tantos outros que infestam nossa alma musical. 
Tempos de muitas lembranças, também polarizadas. Umas antigas, como Canudos, outras recentes, como o choro do filho do Zico, na primeira página do JT, no desastre de 82. Ambas tristes, mas tão brasileiras. Como o golpe de 64 e a multidão nas ruas por Diretas Já. (Nunca mais ditadura, por pior que seja o governo democrático). Fora Collor. E fora todo aquele  que quiser punir esse povo tão punido pelos abusos cometidos nestes cinco séculos de máculas.
Brasil. Seus 500 anos não foram sinônimo de muita ordem e progresso. Mas de fé e esperança.
Esperamos que nestes próximos 500 anos , suas diferenças sejam mais amenas. Que o feio esteja mais para o belo, que a floresta sobreviva, que nada mais seja o fim e sim o meio. O meio de se construir um grande País.

 
 
Júlio Ottoboni é repórter do jornal 
"O Estado de São Paulo"

 
 
 
 


 
Melhor  visualizado em  Netscape . Resolução:  800 x  600  pixels

 
 
         ©Kalix Magazine - Edição maio-junho 2000. Verve Comunicação